quarta-feira, 16 de setembro de 2020

"Ciência em Portugal: Aristocratas e plebeus"

Reproduzo abaixo post que em 13 de Abril de 2017 coloquei noutra plataforma: 


Acaba de saber-se pelo conteúdo do Projeto de Regulamento de Avaliação e Financiamento das Unidades de I&D (PRAFU) que a FCT não quer que os Laboratórios Associados-LA sejam avaliados conjuntamente com as restantes unidades do SCTN, como o foram aliás e pela primeira e única vez durante a ingénua tutela do Nuno Crato, que foi incapaz de alcançar a dimensão da guerra que essa decisão posteriormente lhe trouxe. Exponenciada que foi devido aos contactos privilegiados dos LA na comunicação social. E já se sabe como é facil aquela conseguir manipular a opinião pública. A referida comunicação social não se inibiu sequer de produzir noticiais com factos comprovadamente falsos como se prova aqui. 

Não fora isso e o nível de contestação não teria sido muito diferente daquele que ocorreu na avaliação de 2007 (ninguém gosta de ser classificado com Good, Fair ou Poor), acrescido daquele pequeno pormenor de Portugal estar à data em quase falência técnica. Significando isso que neste país quem se mete com a aristocracia da ciência leva. Foi aliás essa decisão que motivou muitas das queixas desse selecto grupo de putativas excelências contra a anterior avaliação. Na verdade os aristocratas dos LA nunca aceitaram a afronta de terem de ser avaliados conjuntamente com a plebe nem muito menos o facto de irem passar a receber uma verba por investigador igual à de outras unidades com desempenho similar. Quem se habituou a viver com generosos orçamentos não aceita facilmente regressar à penúria orçamental na qual tenta sobreviver a restante plebe. A presente "proposta" contida no PRAFU parece por isso significar um regresso ao passado em que apenas 26 LA abocanhavam a parte do leão do orçamento da ciência, deixando nalguns casos apenas um terço desse orçamento para as restantes 293 unidades (Moisés Martins da UMinho dixit). Curiosamente nunca a mesma hipócrita comunicação social achou pertinente falar do quase monopólio dos LA sobre o orçamento da ciência ! Não é assunto que lhes tire o sono.

Tendo tido o seu inicio há quase vinte anos, mais precisamente em Abril de 1999 por decisão politica e sem terem sido sujeitos a qualquer tipo de concurso os LA era suposto representarem um nicho de excelência na produção científica Portuguesa isso numa altura em que a investigação levada a cabo nas restantes unidades tinha um baixo grau de internacionalização, porém sabe-se agora que a produção e o impacto científico de muitos LA não se diferencia muito quer quantitativa quer mesmo qualitativamente da produção de muitas outras unidades que note-se têm orçamentos muitíssimo menores tornando-se por isso absolutamente incompreensível o retomar do seu estatuto de excepção com uma avaliação muito sui generis e um generoso orçamento determinado pelo poder politico. E se é verdade que há algumas poucas com uma elevada competitividade internacional outras há que têm apenas e num bom dia nível muito bom pelo que não se percebe sequer a razão porque lhes foi atribuído aquele estatuto. A prova pode encontrar-se num relatório do Professor Catedrático de Engenharia da Universidade do Porto José Sarsfield Cabral  https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/84270 mas em particular no documento https://www.docdroid.net/uRbPalE/2016-research-evaluation-pdf e também mas principalmente numa análise do estudo realizado pela Elsevier à produção das unidades e disponível aqui https://www.fct.pt/apoios/unidades/avaliacoes/2013/analise_bibliometrica.phtml.pt#resultados comprova isso mesmo havendo inclusive alguns LA que produziram menos e com muito menos impacto do que muitas das unidades da sua área. Não admira por isso que alguns deles tenham tido uma classificação pouco honrosa na última avaliação da FCT. Houve até um deles que esteve quase a não conseguir passar à segunda fase mas quem têm um Magnífico Reitor como um dos seus membros têm tudo. E como neste país não há nada que não se resolva os aristocratas responsáveis por esses LA (e também o CRUP que lhe tomou as dores pois que até mesmo este orgão teme a poderosa casta que mete Ministros no bolso) limitaram-se a dizer que não aceitam o resultado dessa avaliação, pois a mesma só pode estar incorrecta (e logo ser nula) porque foi incapaz de comprovar a sua óbvia excelência. A tese que defendem é muito interessante, produziram pouco comparado com as unidades das sua área mas produziram coisas com muita qualidade porém essa qualidade só pode apreender-se pela leitura das suas publicações que são muito originais, consistentes e rigorosas (vide a nova terminologia do PRAFU) embora por motivos absolutamente incompreensíveis e quiçá até esotéricos receberam muito menos citações do que as publicações das outras unidades da mesma área.

É impossível deixar de ler nesta inqualificável proposta da FCT que se pretende evitar que se saiba qual é na realidade a qualidade (ou falta dela) da cara ciência que por lá se faz quando comparada com a qualidade da ciência low-cost produzida em muitas outras unidades (que em vários casos até é muito maior) e evidentemente pretende-se assim também evitar a desagradável surpresa de algum LA ter baixa classificação o que seria uma vergonha para quem lhes atribuiu e foi mantendo aquele estatuto ao longo dos anos e poderia no limite até implicar a perda desse mesmo estatuto. Facto que curiosamente nunca ocorreu o que mostra que quando uma unidade alcança o olimpo associado tudo o que faz é no mínimo excelente. Ou então a explicação para essa excelência ininterrupta ao longo de vários anos poderá ser bem pouco científica. Na banca já se conhecia o conceito "too big too fail" curiosamente na academia parece haver o conceito "too well connected to loose the associate laboratory status". Não parece nada saudável nem muito menos sustentável que o sistema científico nacional possa mais uma vez voltar a favorecer os aristocratas do costume e a descriminar a restante plebe por razões de pura politiquice e que o orçamento da ciência esteja assim capturado pelos grupos de interesses que mais barulho conseguem fazer como referiu o António Coutinho em artigo publicado no Expresso na semana passada https://www.docdroid.net/qluOQPi/a-coutinho-expresso-2017-pdf O MTCES ou a FCT deviam por isso revelar desde já quais os envelopes financeiros que estão reservados para os LA e para as restantes unidades do SCTN sob pena de ficar instalada na comunidade científica a dúvida relativa ao eventual favorecimento dos aristocratas dos LA. Mais, os LA devem evidentemente ser avaliados ao mesmo tempo e com as mesmas regras com que irão ser avaliadas todas as outras unidades para que provem de forma cabal e dúvidas não restem que foram merecedores do excepcional estatuto e elevado orçamento que lhes foi atribuído ou será que os LA tem medo de ser avaliados pela bitola das outras unidades de investigação ?